A preocupação com a utilização adequada do trabalho de campo pelos professores é significativa. Nesse contexto, no Estado de Santa Catarina, a Secretaria de Educação instituiu uma portaria específica para regulamentar o trabalho de campo nas escolas públicas da Rede Estadual. A Portaria nº 3.205 de 04 de dezembro de 2023, tem como título “Saídas de Estudo” e estabelece todas as diretrizes que regulamentam as saídas de estudo que podem ser realizadas por estudantes da Educação Básica e Profissional da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina. O documento também define o que é considerado uma saída de estudo:
Considera-se saída de estudo atividades de ensino e aprendizagem intencionalmente planejada, prevista no Projeto Pedagógico da Escola, com o objetivo de potencializar conceitos e conteúdos planejados, bem como, se for o caso, indicar as habilidades a serem desenvolvidas nas diferentes áreas do conhecimento e componentes curriculares.
(SANTA CATARINA/SED, 2023, art. 2º, parágrafo único).
Este documento que regulamenta os trabalhos de campo na educação básica no Estado de Santa Catarina, também traz diversas informações sobre a importância da construção de um planejamento robusto e organizado que deve ser apresentado tanto à Escola no qual a metodologia será aplicada, quanto à Gerência Regional de Educação (GERED), para a obtenção da aprovação do trabalho de campo. No Art. 6º, o documento trata do planejamento da saída de estudo, indicando o roteiro a ser seguido para organizar o planejamento e projeto do trabalho de campo. O Quadro 3 apresenta os itens obrigatórios que devem ser seguidos para a elaboração de um projeto de trabalho de campo no âmbito da Rede Estadual de Santa Catarina.
1. Tema da saída de estudo |
2. Justificativa |
3. Objetivo geral e específicos |
4. Fundamentação teórica sobre o tema da saída de estudo. |
5. Conceitos e conteúdos objetos de conhecimento. |
6. Áreas de conhecimento componentes curriculares. |
7. Habilidades e competências que serão desenvolvidas nos estudantes com a referida saída de estudo. |
8. Para os Itinerários Formativos – indicar os eixos estruturantes e as suas respectivas habilidades (que serão desenvolvidas nos estudantes) |
9. Para Projeto de Vida, indicar as dimensões que serão trabalhadas; para cursos EPT, indicar a relevância da viagem na formação profissional e as habilidades (que serão desenvolvidas nos estudantes); |
10. Atividades do roteiro para os estudantes que irão permanecer na escola (se for o caso); |
11. Avaliação e critérios avaliativos |
12. Modelo de autorização encaminhada aos responsáveis. |
A portaria traz ainda informações que devem estar previstas no planejamento da saída de estudo como: locais e itinerários, os horários de saídas e de retorno, uma relação de educandos e professores transportados, que devem conter a matrícula e CPF (Cadastro de pessoa física). Também informa que a autorização somente será dada se a atividade atingir pelo menos 50% dos educandos matriculados no somatório das turmas que realizarão a saída de estudo. Outra informação importante é que a cada 15 educandos deverá ser destinado um servidor (professor/ATP/ Gestor, entre outros da equipe pedagógica ou gestora) para acompanhamento da atividade.
O documento deixa claro que “não se caracterizam saídas de estudo aquelas que possuem caráter recreativo, tais como os passeios de turmas de formandos”. Assim, fica evidente que para ser uma saída de estudo, terminologia usada no documento, precisa ter planejamento e organização com fim pedagógico e metodológico. Porém, o documento enfatiza que o planejamento precisa ser alinhado com o que os educandos estão estudando em sala de aula, garantindo a integração entre a teoria e a prática.
Para contribuir com a compreensão do que se entende por trabalho de campo como metodologia de ensino, recorremos aos entendimentos dos pesquisadores Kozenieski, Lindo e Souza (2021), que o caracterizam da seguinte maneira:
Em nossa leitura, o trabalho de campo constitui-se como uma atividade individual ou em grupo que (1) visa à construção de um determinado conhecimento ou experiência, fazendo parte de (2) uma etapa em um processo mais abrangente de pesquisa, ensino e/ou extensão. Trata-se de uma práxis (3) orientada por referenciais filosóficos/epistemológicos que necessita da delimitação de um (4) objeto de conhecimento. Tem como (5) locus de realização o mundo, promovendo a (6) interação com sujeitos e fenômenos espaciais. Os trabalhos de campo efetivam-se por meio de (7) estratégias de mediação e métodos e demandam (8) sistematização, reflexão e avaliação (Kozenieski; Lindo; Souza, 2021, p. 9).
Ao levar os educandos ao espaço real que estão estudando, o trabalho de campo evidencia a importância de se aprender Geografia na escola. Essa experiência favorece a construção do conhecimento ao relacionar o espaço geográfico com os conceitos anteriormente abordados de forma abstrata em sala de aula, atribuindo novos significados e promovendo um aprofundamento da compreensão dos conteúdos.
Até mesmo a rua por onde o estudante passa diariamente a caminho da escola pode contribuir para que ele compreenda e se aproprie de conceitos que antes lhe pareciam abstratos. O trabalho de campo tem o potencial de promover a aprendizagem de conteúdos de forma significativa, além de estimular a troca de saberes entre os próprios educandos, fortalecendo a interação entre colegas e professores. A vivência proporcionada por essa metodologia amplia o conhecimento e pode auxiliar o indivíduo a compreender melhor a sociedade em que está inserido. Além disso, favorece o desenvolvimento de um olhar mais geográfico sobre o espaço em que vive, abrindo caminho para novas interpretações e análises sobre o meio.
KOZENIESKI, Éverton de Moraes; LINDO, Paula Vanessa de Faria; SOUZA, Reginaldo José de. O trabalho de campo como produção de conhecimento: contribuições metodológicas à práxis geográfica. Revista Brasileira de Educação em Geografia, Campinas, v. 11, n. 21, p. 05-22, jan./dez. 2021. Disponível em: https://www.revistaedugeo.com.br. Acesso em: 02 abr. 2024.
SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação. Diretoria de Ensino. Repositório para organização e funcionamento das unidades escolares de educação básica e profissional da rede pública estadual. Florianópolis: SED/DIEN, 2024. Inclui: Portaria nº 3205, de 4 de dezembro de 2023 (Diretrizes para saídas de estudo).