Roteiro de trabalho de campo cidade de Gaspar - SC

Apresentação

Este documento apresenta e analisa a prática pedagógica desenvolvida na Escola Estadual Básica Honório Miranda, em Gaspar/SC, a partir do uso da metodologia de trabalho de campo no ensino de Geografia. A atividade foi desenvolvida com uma turma do 1º ano do Ensino Médio no turno vespertino, com percurso realizado na região central da cidade, próxima à escola, área marcada pela bacia hidrográfica do Rio Itajaí-Açu e pela história da ocupação urbana.

Gaspar – SC

1º Ano do Ensino Médio

Ensino de Geografia

Bacia do Rio Itajaí-Açu

Metodologia

Estrutura geral do trabalho de campo em três etapas

Baseada em Neves (2015) e Bachelli (2014), a metodologia organiza o trabalho de campo em três etapas interdependentes:

Pré-Campo

Fundamentação teórica e conceitual em sala de aula

Campo

Saída a campo com observação, registro e análise do espaço geográfico

Pós-Campo

Sistematização e síntese dos conhecimentos construídos

Regulamentação: O planejamento seguiu as diretrizes da Portaria nº 3.205 de 04/12/2023, que regulamenta os trabalhos de campo nas Escolas Estaduais de Santa Catarina (GERED/SC). A autorização da atividade levou aproximadamente 3 meses a partir do envio à Gerência de Educação.

Por que fazer trabalho de campo em Geografia?

O trabalho de campo proporciona uma aula com dinâmica diferente, saindo da sala para estudar o espaço geográfico externo. Segundo Cavalcanti (2013), a Geografia trabalha conceitos que fazem parte da vida cotidiana e trabalhar a realidade local é o primeiro passo para dar significado ao ensino.

Localização do percurso

O percurso foi realizado na região central de Gaspar, próxima à escola, às margens do Rio Itajaí-Açu. A escolha aproximou os alunos do seu próprio cotidiano, demonstrando que a Geografia faz parte da rotina deles, embora muitas vezes passe despercebida.

Temas abordados

Bacia hidrográfica do Rio Itajaí-Açu

Urbanização e mobilidade urbana

Áreas de risco e enchentes

Matas ciliares

Organização territorial da cidade

Rugosidades urbanas (Milton Santos)

Pré-Campo

8 aulas de fundamentação teórica e conceitual em sala de aula

A etapa de pré-campo ocorre em sala de aula e está relacionada à fundamentação teórica e conceitual. São aulas de caráter expositivo e dialogado que preparam o educando para observar, registrar e analisar o espaço geográfico em campo.

Apresentação da metodologia de trabalho de campo

O professor apresentou aos educandos o que é um trabalho de campo e como a atividade seria desenvolvida. Muitos alunos afirmaram não saber do que se tratava, ou associavam a atividade a um simples passeio.

Foram utilizados slides com imagens de trabalhos de campo realizados durante a licenciatura do professor e em outras instituições de ensino, despertando o interesse dos alunos.

  • Computador e data show
  • Slides com fotografias

Iniciou-se a abordagem dos conteúdos com a formação da bacia hidrográfica do Rio Itajaí-Açu: seus principais tributários, a influência do relevo nos problemas socioambientais e a importância histórica do rio para o Vale do Itajaí.

Com o Google Earth, foi possível localizar a nascente do rio, identificar cidades às suas margens e problematizar a ocupação humana em áreas de várzea, discutindo por que isso ocasiona desastres socioambientais.

  • Importância histórica do rio como via de transporte
  • Processo de assoreamento que inviabilizou a navegação
  • Portos fluviais históricos de Gaspar
  • Ocupação irregular de áreas de risco
Antigos portos fluviais e organização do espaço urbano em Gaspar

Baptista, Leda Maria (Org.). Memória do Centro. Gaspar: Arquivo Público Municipal, 2021.

O professor apresentou fotos e vídeos históricos sobre as enchentes que atingiram Gaspar, especialmente o evento de 1983, evidenciando os problemas socioambientais associados à falta de planejamento urbano e à ocupação de áreas de risco.

Fotos da Enchente em Gaspar (1983)

Fonte: Jornal Cruzeiro do Vale (2020)

Os educandos foram orientados a pesquisar dados sobre Gaspar em sites oficiais, ampliando o conhecimento sobre aspectos geográficos, econômicos, políticos e populacionais do município.

  • IBGE: dados populacionais e socioeconômicos
  • Prefeitura Municipal de Gaspar: informações e mapas temáticos
  • Defesa Civil: cotas de enchente por rua e bairro, mapas de risco
  • Destaque: os alunos pesquisaram a cota de enchente da própria rua onde moram, demonstrando envolvimento direto com a realidade local.
Educandos Pesquisando sobre o Município de Gaspar

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Os alunos compartilharam as descobertas feitas nas pesquisas anteriores. A aula possibilitou esclarecer dúvidas sobre o município, com debates sobre a realidade local apoiados em dados e conhecimento científico.

A Geografia adquiriu novos significados à medida que os conteúdos se relacionavam à realidade vivida pelos próprios educandos e aproximando teoria e prática, conforme defendem Resende (1986), Tomita (1999) e Callai (2001).

O professor apresentou imagens e recortes de jornais sobre a grande enchente de 2008 no Vale do Itajaí, evento que deixou marcas profundas na memória da cidade. Muitos alunos disseram que pouco sabiam sobre o episódio. 

As imagens causaram grande impacto, especialmente a da área em frente à escola, gerando questionamentos se o evento poderia se repetir. O professor explicou que sim, dada a localização da cidade na dinâmica fluvial do rio.

Registro fotográfico da enchente de 2008 utilizado em sala de aula

GASPAR (SC). Enchente de 2008 completa 13 anos. Prefeitura de Gaspar, 2021. Disponível em: Prefeitura de Gaspar. Acesso em: 03 maio 2026.

O professor apresentou imagens de satélite do perímetro urbano de Gaspar e percorreu virtualmente as ruas da região central com o Google Street View, familiarizando os alunos com os locais que seriam visitados.

Também foram apresentadas imagens de construções antigas ainda presentes na paisagem urbana, introduzindo o conceito de rugosidade proposto por Milton Santos para explicar o processo de urbanização do município.

Na última aula de pré-campo, cada educando construiu seu caderno de campo personalizado com material que seria utilizado durante a saída a campo. O material foi confeccionado de forma coletiva, mas com liberdade individual de personalização.

  • Folhas sulfite, réguas e grampeador
  • Mapas e imagens da cidade de Gaspar disponibilizados pelo professor
  • Roteiro com os pontos A, B e C a serem observados

Orientações finais: uniforme da escola, roupas e calçados confortáveis, garrafa de água, boné ou proteção solar, autorização assinada pelos responsáveis. Chamada obrigatória no início e no final da atividade.

Também nessa aula, o professor disponibilizou o material para os alunos que optaram pela modalidade virtual, usando Google Maps/Earth e Street View para percorrer os mesmos pontos do campo presencial.

Caderno de campo

Garrafa de água

Caneta, lápis e borracha

Boné ou proteção solar

Roteiro impresso

Calçado confortável

Celular ou Camera fotografica

Lista de presença

Campo

Saída a campo: Região central de Gaspar/SC

O trabalho de campo foi realizado na região central de Gaspar, percorrendo pontos estratégicos previamente mapeados pelo professor. O percurso foi estruturado com paradas nos pontos A, B e C, permitindo observar in loco os fenômenos estudados nas aulas de pré-campo.

Pontos do percurso


 A - Entrada e saída da escola

O ponto inicial do trabalho de campo correspondeu à entrada e saída da escola, local em que foram apresentadas as orientações gerais da atividade.

B - Área urbana da região central da cidade

Neste ponto, os educandos analisaram o processo de urbanização e a organização territorial da região central da cidade. A observação das residências e da paisagem urbana permitiu discutir valorização imobiliária, ocupação do solo e diferenças socioespaciais.

C - Via urbana com ausência de acessibilidade e falhas no planejamento

A observação desta rua possibilitou discutir problemas relacionados ao planejamento urbano e à mobilidade. Os educandos identificaram a ausência de calçadas adequadas e dificuldades de acessibilidade, refletindo sobre a necessidade de cidades mais inclusivas.

D - Área comercial com presença de comércios e serviços

Neste trecho do percurso, foi analisada a dinâmica comercial da região central. Os educandos observaram o uso do solo urbano, a concentração de serviços e a importância econômica da área para o município.

E - Área de várzea com valorização do solo em zona suscetível a inundações

Neste ponto, os educandos refletiram sobre a ocupação urbana em áreas de várzea próximas ao rio. Foram discutidos temas relacionados à valorização imobiliária, enchentes e aos riscos socioambientais decorrentes da ocupação dessas áreas.

F - Ponte sobre o Rio Gasparinho

A parada na ponte permitiu observar o rio Gasparinho e a dinâmica fluvial da cidade. Os educandos analisaram aspectos relacionados à mata ciliar, poluição e impactos da urbanização sobre os cursos d’água.

G - Área de deslizamento

Nesse local, foi possível identificar marcas de erosão e deslizamento de terra. A atividade contribuiu para discutir áreas de risco, ocupação inadequada do solo e os impactos ambientais causados pela ação humana.

H - Confluência fluvial entre o Rio Gasparinho e o Rio Itajaí-Açu

Neste ponto, os educandos observaram a confluência entre dois rios e compreenderam a relação entre rios tributários e o rio principal. Também foram debatidos os impactos da antropização e da ausência de vegetação marginal.

I - Antigo porto fluvial

O antigo porto fluvial foi utilizado para discutir a importância histórica do rio para a cidade. A observação da paisagem possibilitou reflexões sobre circulação, ocupação urbana e transformações históricas do espaço geográfico.

J - Centro de Gaspar (rua principal)

Ao percorrer a principal rua da cidade, os educandos analisaram a paisagem urbana, o comércio local e os vestígios históricos presentes nas edificações antigas. Nesse ponto, foi trabalhado o conceito de rugosidade do espaço geográfico.

K - Mirante da cidade

No mirante, os educandos tiveram uma ampla visão do rio Itajaí-Açu e do bairro Margem Esquerda. A observação permitiu discutir ocupação urbana, ausência de mata ciliar e problemas socioambientais relacionados ao rio.

L - Ponto mais elevado da área de estudo

Esse ponto proporcionou uma visão panorâmica da cidade, favorecendo a análise da urbanização, da verticalização e da organização espacial do município. Também foi possível observar áreas de risco e a intensa ocupação das margens do rio.

M - Gruta

O último ponto do percurso foi utilizado para o lanche coletivo e as atividades de pós-campo. Além do momento de convivência, o local permitiu a realização de reflexões sobre as observações feitas ao longo da atividade e destacou a importância do planejamento em trabalhos de campo.

Recursos utilizados em campo
  • Caderno de campo (produzido pelos alunos)
  • Mapas temáticos impressos
  • Fotos históricas da cidade
  • Roteiro de observação (pontos A, B, C, D, E, F,G,H,I,J,K,L,M

Modalidade virtual: Alunos que optaram por não participar presencialmente realizaram a atividade com Google Maps e Street View, percorrendo os mesmos pontos e respondendo às mesmas questões de observação no caderno de campo.

Pós-Campo

Sistematização, síntese e construção do conhecimento geográfico

A etapa de pós-campo compreende a organização e sistematização das observações registradas no caderno de campo, articulando os dados coletados in loco com os conceitos trabalhados nas aulas de pré-campo.

Objetivos da etapa
  • Sistematizar as anotações do caderno de campo
  • Confrontar o que foi observado com o embasamento teórico do pré-campo
  • Elaborar reflexões sobre os problemas socioambientais identificados
  • Consolidar o aprendizado geográfico a partir da experiência vivida

Articular o conhecimento geográfico com o trabalho de campo potencializa o despertar do conhecimento, pois atribui maior significado ao interpretar, analisar e problematizar os fenômenos e as contradições presentes nas relações mais próximas do indivíduo.

Galeria de fotos do trabalho de campo

Referências Bibliográficas

ANDRADE, Wagner da Silva. Trabalhos de campo: do planejamento à execução. GRECO, Roberto (org). Práticas de geociência na educação básica: sugestões de atividades práticas para o ensino de conteúdos de geociência na educação básica. São Manuel, SP: Frieden, 2018., 2018.

BACHELLI, D. A potencialidade do trabalho de campo no ensino de Geografia: a cidade e o urbano. In: Geografia Escolar: contextualizando a sala de aula. Curitiba, PR: CRV, 2014. p. 206-216.

CAVALCANTI, Lana de Souza. O ensino de geografia na escola. Papirus, 2012.

NEVES, Karina Fernanda Travagim Viturino. Os trabalhos de campo no ensino da geografia: reflexões sobre a prática docente na educação básica. Editus, Editora da UESC, 2015.

RODRIGUES, Antonia Brito; OTAVIANO, Cláudia Arcanjo. Guia metodológico de trabalho de campo em Geografia. Geografia (Londrina), v. 10, n. 1, p. 35-43, 2001. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/geografia/article/view/10213.  Acesso em: 11 abr. 2024.